Dans le marges du River Sena, 28 de Abril de 2009Olá diário!
Resolvi transcrever aqui uma das versões do conto O Horla de Guy de Maupassant, que eu indiquei em um tópico na comunidade do Orkut Comensais BPH. Espero que gostem, caros amigos, pois fiz pensando em vocês.
O HORLA
8 de Maio
Que dia admirável! Passei toda a manhã deitado na relva, diante da minha casa, sob o enorme plátano que a cobre, a abriga e lhe dá sombra. Gosto dessa região e gosto de viver aqui, porque aqui se encontram minhas raízes, essas profundas e delicadas raízes que ligam um homem à terra onde nasceram e morreram seus antepassados, que o ligam ao que se pensa e ao que se come, aos hábitos como aos alimentos, às expressões locais, às entonações dos camponeses, aos odores do solo, das aldeias e do próprio ar.
Gosto da minha casa, onde cresci. Das janelas, vejo o Sena que corre ao longo do meu jardim, por trás da estrada, quase em minha casa, o grande e largo Sena que vai de Rouen ao Havre, coberto de barcos que passam.
Lá, à esquerda, Rouen, a grande cidade de telhados azuis, sob a multidão pontiaguda dos campanários góticos. São inumeráveis, esguios ou largos, dominados pela flecha da catedral, e cheios de sinos que ressoam no ar azul das belas manhãs , lançando ate mim o seu suave e longínquo zumbido de ferro, o seu canto de bronze que a brisa me traz, ora mais forte, ora mais fraco, conforme ela desperta ou adormece.
Como o tempo estava bom esta manhã!
Por volta das onze horas, um longo comboio de navios puxados por um rebocador, do tamanho de uma mosca, e que arquejava de esforço vomitando uma fumaça espessa, desfilou diante do meu portão.
Diante de duas escunas inglesas, cujo pavilhão vermelho ondulava contra o céu, vinha uma soberba galera brasileira, inteiramente branca, admiravelmente limpa e luzidia. Eu a saudei, não sei por quê, tal o prazer senti ao ver este navio.
12 de Maio
Há alguns dias que ando com um pouco de febre; sinto-me doente, ou melhor, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo a nossa felicidade e a nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de potências incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança sofremos a influência. Acordo cheio de alegria, com desejos de cantar – Por quê? - Desço até a margem do rio; e, de súbito, após um curto passeio, regresso desolado como se alguma desgraça me esperasse em casa. – Por quê? – Será que um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será que a forma das nuvens ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, passando por meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos, e por meio destes, em nossas idéias, e até em nosso coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis?
Como é profundo o mistério do Invisível! Não podemos sondá-lo com nossos miseráveis sentidos, com nossos olhos que não sabem perceber nem o muito pequeno, nem o muito grande, nem o muito próximo, nem o muito afastado, nem os habitantes de uma estrela, nem os habitantes de uma gota d’água... com nossos ouvidos que nos enganam, pois nos transmitem as vibrações do ar em notas sonoras. São gênios que fazem o milagre de transformar em ruído este movimento e através desta metamorfose dão origem à música, que torna cantante a agitação muda da natureza... com nosso olfato, mais fraco que o do cão... com nosso paladar, que mal pode distinguir a idade de um vinho!
Ah! Se tivéssemos outros órgãos que realizassem em nosso favor outros milagres, quantas coisas ainda poderíamos descobrir à nossa volta!
16 de Maio
Decididamente, estou doente! E estava tão bem no mês passado! Tenho febre, uma febre atroz, ou melhor, um enervamento febril que torna minha alma tão doente quanto o meu corpo. Tenho sempre essa horrível sensação de um perigo iminente, essa apreensão de uma desgraça que está para chegar ou da morte que se aproxima, esse pressentimento, que talvez seja o efeito de um mal ainda desconhecido, germinando no sangue e na carne.
18 de Maio
Acabo de consultar o meu médico, pois não podia mais dormir. Ele achou meu pulso acelerado, a pupila dilatada, os nervos excitados, mas nenhum sintoma alarmante. Devo submeter-me a duchas e tomar brometo de potássio.
25 de Maio
Nenhuma alteração! O meu estado é realmente estranho. À medida que a tarde avança, uma inquietação incompreensível me invade, como se a noite me ocultasse uma ameaça terrível. Janto às pressas, depois tento ler; mas não compreendo as palavras; mal distingo as letras. Caminho, então, na sala, de um lado para o outro, sob a opressão de um medo confuso e irresistível, o medo do sono e o medo da cama.
Por volta das dez horas, subo ao meu quarto. Logo que entro, dou duas voltas à chave e fecho os ferrolhos; tenho medo... de quê?... Até agora eu não temia nada... abro os armários, olho debaixo da cama; escuto... escuto... o quê?... Não é estranho que uma simples indisposição, um problema de circulação talvez, a irritação de um filete nervoso, uma ligeira congestão, uma pequena perturbação no funcionamento tão imperfeito e tão delicado da nossa máquina viva, possa fazer do mais alegre dos homens um melancólico e do mais valente um poltrão? Depois, deito-me e espero o sono como esperaria o carrasco. Espero-o com o terror da sua vinda e o meu coração bate, e as minhas pernas tremem, e todo o meu corpo estremece no calor das cobertas, até o momento em que caio subitamente no sono, como quem cairia em um abismo de água estagnada para aí se afogar. Não o sinto vir como outrora, esse sono pérfido, escondido perto de mim, que me espreita, que vai me agarrar pela cabeça, fechar-me os olhos, aniquilar-me.
Durmo, por muito tempo, duas ou três horas depois, um sonho, não, um pesadelo me assalta. Bem sei que estou deitado e que durmo... Eu o sinto e o vejo... e sinto também que alguém se aproxima de mim, me olha, me apalpa, sobe na minha cama, ajoelha-se sobre o meu peito, põe as mãos no meu pescoço e aperta... aperta... com toda a força para me estrangular.
Eu me debato, preso por essa impotência atroz que nos paralisa nos sonhos; quero gritar – não posso; quero mover-me – não posso; com um esforço terrível, arquejando, tento me virar, repelir esse ser que me esmaga e sufoca – não posso!
E, de súbito, acordo alucinado, coberto de suor. Acendo uma vela. Estou só.
Após essa crise que se repete todas as noites, durmo enfim, calmamente até o amanhecer.
2 de Junho
Meu estado agravou-se. O que é que eu tenho, afinal? O brometo não dá resultado, as duchas não adiantam nada. Ainda há pouco, para fatigar meu corpo já tão cansado, fui dar uma volta pela floresta de Roumare. Julguei, a princípio, que o ar fresco, leve e suave, cheio do aroma de ervas e folhas, lançava em minhas veias um sangue novo, no coração uma energia nova. Entrei por uma grande avenida de caça, depois desviei para La Bouille, por uma alameda estreita entre dois exércitos de arvores desmesuradamente altas que formavam um teto verde, espesso, quase negro, entre mim e o céu. De súbito, tive um arrepio, não um arrepio de frio, mas um estranho arrepio de angústia.
Apressei o passo, inquieto por estar sozinho nesse bosque, amendrontado sem razão, estupidamente, pela profunda solidão. De repente, pareceu-me que estava sendo seguido, que andavam nos meus calcanhares, bem junto de mim, quase me tocando.
Voltei-me bruscamente. Estava só. Atrás de mim só havia a enorme alameda reta, deserta, terrivelmente deserta; e do outro lado ela também se estendia a perder de vista, sempre igual, sempre assustadora.
Fechei os olhos. Por quê? E comecei a girar sobre um calcanhar, rápido, como um pião. Quase caí, reabri os olhos; as árvores dançavam, a terra ondulava; tive que me sentar. Depois, - ah! - eu não sabia mais por onde tinha vindo! Que idéia estranha! Que idéia estranha! Eu não sabia mais nada. Voltei pelo lado que ficava à minha direita e fui dar na avenida que me conduzira ao meio da floresta.
3 de Junho
A noite foi horrível. Vou ausentar-me por algumas semanas. Uma pequena viagem deverá me restabelecer.
2 de Julho
Regresso. Estou curado. Aliás, fiz uma viagem encantadora. Visitei o monte Saint-Michel, que eu não conhecia.
Que visão quando se chega, como eu, em Avranches quase no fim do dia. A cidade está situada sobre uma colina; e conduziram-me à praça pública, no extremo da cidade. Soltei um grito de admiração.
Uma enorme baía estendia-se à minha frente, a perder de vista, entre duas praias afastadas que se perdiam ao longe na bruma; e no meio dessa imensa baía amarela, sob um céu de ouro e claridade, erguia-se um estranho monte, sombrio e pontiagudo, em meio às areias. O sol acabava de desaparecer e no horizonte ainda flamejante desenhava-se o perfil deste fantástico rochedo que possui em seu cume um incrível monumento.
Assim que nasceu o dia, dirigi-me para lá. A maré estava baixa, como na véspera, e eu via erguer-se diante de mim, à medida que me aproximava, a surpreendente abadia. Após várias horas de caminhada, atingi o enorme bloco de pedra em que se encontra a pequena cidade dominada pela grande igreja. Tendo subido a rua estreita e inclinada, entrei na mais admirável morada gótica construída para Deus sobre a Terra, vasta como uma cidade, cheia de salas baixas esmagadas sob abóbadas e de altas galerias sustentadas por esguias colunas. Penetrei nesta gigantesca jóia de granito, delicada como uma renda, coberta de torres, de pequenos e esbeltos campanários, por onde sobem escadas retorcidas, e que projetam no céu azul dos dias, no céu negro das noites, suas bizarras cabeças cheias de quimeras, de diabos, de animais fantásticos, de flores monstruosas, ligados entre si por finos arcos trabalhados.
Quando cheguei ao cume, disse ao monge que me acompanhava: “Como o senhor deve sentir-se bem aqui, meu padre!”
Ele respondeu: “Há muito vento, senhor.”; e começamos a conversar vendo o mar que subia e se espalhava pela areia cobrindo-a com uma couraça de aço.
E o monge me contou histórias, todas as velhas histórias do lugar, lendas e mais lendas.
Uma delas me impressionou muito. As pessoas da região, as que vivem no monte, dizem que se ouve falar, à noite, nas areias, e que depois se ouvem balirem duas cabras, uma com voz forte, a outra com voz fraca. Os incrédulos afirmam que são os gritos das aves marinhas, que ora se assemelham a balidos, ora a lamentos humanos; mas os pescadores retardatários juram haver encontrado, vagando pelas dunas, entre duas marés, em redor da pequena cidade ali erguida longe do mundo, um velho pastor cuja cabeça, coberta com um manto, a gente nunca vê, e que conduz, caminhando à sua frente, um bode com cara de homem e uma cabra com cara de mulher, ambos com longos cabelos brancos e falando sem parar, discutindo numa língua desconhecida e depois parando subitamente de gritar para balirem com toda força.
Eu disse ao monge: “Acredita nisso?”
Ele murmurou: “Não sei.”
Prossegui: “Se existissem na Terra outros seres além de nós, como não os conheceríamos há muito tempo; como o senhor não os teria visto? Como eu não os teria visto?”
Ele respondeu: “Será que nós vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe, eis o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate os edifícios, desenraiza as árvores, faz o mar erguer-se em montanhas d’água, destrói as falésias e lança os grandes navios contra os recifes, o vento que mata, que assobia, que geme, que ruge – já o viu ou poderá ver? E, no entanto, ele existe!”
Calei-me diante desse simples raciocínio. Este homem era um sábio, ou talvez um tolo. Não poderia afirmá-lo ao certo, mas calei-me. O que dizia, eu já o tinha pensado muitas vezes.
3 de Julho
Dormi mal; certamente existe aqui algo que provoca febre, pois meu cocheiro sofre do mesmo mal que eu. Ontem, ao voltar, notara sua singular palidez. Perguntei-lhe:
“O que você tem, Jean?”
“É que não consigo mais descansar, senhor, são as minhas noites que me comem os dias. Desde que o senhor partiu, isso me pegou como um feitiço.”
No entanto, os outros criados vão bem; mas eu tenho muito medo de ter uma recaída.
4 de Julho
Decididamente, tive uma recaída. Os antigos pesadelos estão de volta. Esta noite, senti alguém agachado sobre mim que, com a sua boca sobre a minha, bebia a minha vida por entre os lábios. Sim, ele a chupava de minha garganta como se fosse uma sanguessuga. Depois, ele se levantou, saciado, e eu acordei tão enfraquecido, exausto e aniquilado que nem podia me mover. Se isto continuar mais alguns dias, certamente partirei de novo.
5 de Julho
Terei perdido a razão? O que se passou na última noite é tão estranho que minha cabeça se perde quando penso nisso!
Como faço agora toda noite, tinha fechado minha porta a chave; depois, tendo sede, bebi meio copo d’água, e notei por acaso que a jarra estava cheia até a tampa de cristal.
Deitei-me em seguida e caí num dos meus terríveis sonos, do qual fui tirado ao cabo de umas duas horas, por um sobressalto ainda mais terrível.
Imaginem um homem que dorme, a quem tentam assassinar, e que acorda com uma faca no pulmão e agoniza, coberto de sangue, e não pode mais respirar, e vai morrer, e não compreende nada – aí está.
Tendo finalmente recuperado a razão, senti sede de novo; acendi uma vela e dirigi-me à mesa onde estava a jarra. Levantei-a, inclinando-a sobre o copo; nada escorreu. Estava vazia! Completamente vazia! A princípio, não compreendi nada; depois, de súbito, senti uma emoção tão terrível que tive de me sentar, ou melhor, caí numa cadeira! Depois, levantei-me de um salto para olhar ao meu redor! Depois voltei a sentar-me, louco de espanto e de medo, diante do cristal transparente! Eu o contemplava com os olhos fixos, procurando compreender. Minhas mãos tremiam! Tinham, então, bebido essa água? Quem? Eu? Sem dúvida! Só podia ter sido eu! Então, eu era sonâmbulo, vivia, sem saber, esta misteriosa vida dupla que leva a pensar se não há dois seres em nós, ou se um ser estranho, desconhecido e invisível, não anima, por momentos, quando a nossa alma está entorpecida, o nosso corpo cativo que obedece a este outro como a nós mesmos, mais do que a nós mesmos.
Ah! Quem compreenderá a minha abominável angústia. Quem compreenderá a emoção de um homem, são de espírito, bem desperto, cheio de razão e que olha apavorado, através do vidro de uma jarra, um pouco d’água desaparecida enquanto ele dormia! E ali fiquei até o nascer do dia, sem ousar voltar para a cama!
6 de Julho
Estou ficando louco. Beberam novamente toda a minha água esta noite: ou melhor, eu a bebi!
Mas será que fui eu? Será que fui eu? Quem poderia ser? Quem? Oh! Meu Deus! Estou ficando louco? Quem me salvará?
10 de Julho
Acabo de fazer experiências surpreendentes.
Decididamente, estou louco! E, no entanto...
No dia 6 de julho, antes de me deitar, coloquei sobre a mesa vinho, leite, água, pão e morangos. Beberam – eu bebi – toda a água e um pouco de leite. Não tocaram nem no vinho nem nos morangos.
No dia 7 de julho, repeti a mesma experiência que deu o mesmo resultado.
No dia 8 de julho, suprimi a água e o leite. Não tocaram em nada.
Finalmente, no dia 9 de julho, voltei a colocar sobre a mesa apenas a água e o leite, tendo o cuidado de envolver as jarras em panos de musselina branca e de amarrar as tampas. Depois, esfreguei os lábios, a barba e as mãos com grafite e deitei-me.
O invencível sono se apoderou de mim, logo seguido pelo despertar atroz. Não me movera, minhas próprias cobertas não tinham manchas. Corri para a mesa. Os panos que cobriam as jarras permaneciam imaculados. Desatei os cordões, tremendo de medo. Tinham bebido toda a água! Tinham bebido todo o leite! Ah! Meu Deus!...
Vou partir imediatamente para Paris.
12 de Julho
Paris. Sem dúvida tinha perdido a cabeça nos últimos dias! Devo ter sido vítima de minha imaginação abalada, a menos que eu seja realmente sonâmbulo, ou que tenha sofrido uma dessas influências constatadas, mas até agora inexplicáveis, que chamam de sugestões. Em todo caso, meu pânico beirava a demência, e vinte e quatro horas em Paris foram suficientes para restabelecer meu equilíbrio.
Ontem, depois de passeios e visitas que me insuflaram na alma um ar novo e vivificante, terminei a noite no Théâtre-Français. Representavam uma peça de Alexandre Dumas Filho, e este espírito alerta e poderoso acabou de me curar. De fato, a solidão é perigosa para as inteligências que trabalham. Necessitamos, à nossa volta, de homens que pensem e que falem. Quando permanecemos muito tempo sozinhos, povoamos o vazio de fantasmas.
Voltei muito alegre ao hotel, pelos bulevares. No atropelo da multidão, eu pensava, não sem ironia, nos meus terrores, nas minhas suspeitas da semana passada, pois acreditei, sim, acreditei que um ser invisível habitava sob meu teto. Como é fraca nossa mente e como se perturba e se perde tão logo um pequeno fato incompreensível nos impressiona.
Em vez de concluir por estas simples palavras: “Eu não compreendo por que a causa me escapa”, logo imaginamos terríveis mistérios sobrenaturais.
14 de Julho
Festa da República. Passeei pelas ruas. Os petardos e as bandeiras me divertiam como se fosse uma criança. No entanto, é uma grande tolice ficar alegre em data fixa, por decreto do governo. O povo é um rebanho imbecil, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado. Dizem-lhe: “Diverte-te”. Ele diverte-se. Dizem-lhe: “Vai lutar com seu vizinho”. Ele vai. Dizem-lhe: “Vota pelo Imperador”. Ele vota pelo Imperador. Depois, dizem: “Vota pela República”. Ele vota pela República.
Os que o dirigem são igualmente imbecis; mas, em vez de obedecerem a homens, eles obedecem a princípios, os quais só podem ser tolos, estéreis e falsos, pelo próprio fato de serem princípios, isto é, idéias consideradas certas e imutáveis, neste mundo onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o ruído é uma ilusão.
16 de Julho
Ontem vi coisas que me perturbaram muito.
Jantava na casa de minha prima, a Sra. Sablé, cujo marido comanda 76º Regimento de Caçadores, em Limoges. Além de mim, estavam lá duas jovens, uma delas casada com um médico, o doutor Parent, que se ocupa de doenças nervosas e de manifestações extraordinárias ocasionadas atualmente pelas experiências sobre a hipnose e a sugestão.
Durante muito tempo, ele nos contou os resultados prodigiosos obtidos por sábios ingleses e pelos médicos da escola de Nancy.
Os fatos que expôs pareceram-me tão estranhos que me declarei totalmente incrédulo.
“Nós estamos – afirmava ele – prestes a descobrir um dos mais importantes segredos da natureza, quero dizer, um dos mais importantes segredos sobre este planeta; pois certamente existem outros de igual importância além, nas estrelas. Desde que o homem pensa, desde que sabe dizer e escrever o seu pensamento, ele se sente roçado por um mistério impenetrável para os seus sentidos grosseiros e imperfeitos, e procura suprir, pelo esforço da sua inteligência, a impotência de seus órgãos.
Quando essa inteligência ainda se achava no estado rudimentar, essa obsessão pelos fenômenos invisíveis tomou formas banalmente assustadoras. Daí nasceram as crenças populares no sobrenatural, as lendas dos espíritos que vagam, das fadas, dos gnomos, dos fantasmas, direi até mesmo a lenda de Deus, pois as nossas concepções do artífice-criador, de qualquer religião que provenham, são na verdade as invenções mais medíocres, estúpidas e inaceitáveis saídas do cérebro amedrontado das criaturas. Nada mais verdadeiro do que esta frase de Voltaire: ‘Deus fez o homem à sua imagem, mas o homem pagou-lhe na mesma moeda’.
Mas, há pouco mais de um século, parece que se pressente algo novo. Mesmer e alguns outros abriram-nos um caminho inesperado, e chegamos, na verdade, sobretudo há quatro ou cinco anos, a resultados surpreendentes.”
Minha prima, muito incrédula também, sorria. O doutor Parent lhe disse: “Quer que eu tente adormecê-la, minha senhora?”
“Sim, quero”.
Ela sentou-se me uma poltrona e ele começou a olhá-la fixamente, hipnotizando-a. Senti-me, subitamente, um pouco perturbado, com o coração batendo e um nó na garganta. Via os olhos da Sra. Sablé tornarem-se pesados, sua boca crispar-se, seu peito arfar.
Ao cabo de dez minutos, ela dormia.
“Coloque-se atrás dela”, disse o médico.
E eu me sentei atrás dela. Ele colocou nas suas mãos um cartão de visita, dizendo-lhe: “Isto é um espelho; o que vê nele?”
Ela respondeu:
- Eu vejo o meu primo.
- O que ele está fazendo?
- Está torcendo o bigode.
- E agora?
- Está tirando uma fotografia do bolso.
- De quem é essa fotografia?
- Dele.
Era verdade! E essa fotografia acabava de me ser entregue, nessa mesma tarde, no hotel.
- Como é que ele está nesse retrato?
- Está de pé com o chapéu na mão.
Ela via, então, nesse cartão branco como se fosse num espelho.
As mulheres, apavoradas, diziam: “Basta! Basta! Basta!”
Mas o doutor ordenou: “A senhora se levantará amanhã às oito horas, depois irá procurar o seu primo no hotel e lhe pedirá cinco mil francos emprestados a pedido de seu marido, que precisará deles na sua próxima viagem”.
Depois, despertou-a.
Voltando ao hotel pensava nesta curiosa sessão e dúvidas me assaltaram, não quanto à absoluta e insuspeita boa-fé da minha prima, que conhecia desde criança e a quem considerava como uma irmã, mas quanto a uma possível trapaça do doutor. Não estaria escondendo na mão um espelho que mostrava à jovem adormecida ao mesmo tempo que seu cartão de visita? Os prestidigitadores profissionais fazem coisas igualmente singulares.
Voltei então e me deitei.
Ora, nessa manhã, por volta das oito e meia, fui acordado pelo meu camareiro que me disse: “A Sra. Sablé pede para falar com o senhor imediatamente”.
Vesti-me às pressas e a recebi.
Ela sentou-se muito perturbada, de olhos baixos e, sem levantar o véu, disse-me:
- Meu caro primo, tenho um grande favor a pedir-lhe.
- Qual, minha prima?
- É muito incômodo dizê-lo, e, no entanto, é preciso... Tenho necessidade, necessidade absoluta, de cinco mil francos.
- Ora vamos, você?
- Sim, eu, ou melhor, meu marido que me encarregou de consegui-los.
Fiquei tão espantado que balbuciei as respostas. Eu me perguntava se, na verdade, ela não estava zombando de mim juntamente com o doutor Parent, se isto não era uma simples farsa planejada com antecedência e muito bem representada.
Mas, olhando-a com atenção, todas as minhas dúvidas se dissiparam. Ela tremia de angústia, tão dolorosa lhe era esta iniciativa, e percebi que tinha a garganta cheia de soluços.
Sabia que ela era muito rica e prossegui:
- Como? Seu marido não dispõe de cinco mil francos? Vamos, reflita. Você tem certeza de que ele a encarregou de me pedir isto?
Ela hesitou alguns segundos como se fizesse um grande esforço para procurar na memória, depois respondeu:
- Sim... sim... tenho certeza.
- Ele lhe escreveu?
Hesitou de novo, refletindo. Adivinhei o trabalho torturante de seu pensamento. Ela não sabia. Sabia apenas que devia me pedir emprestados cinco mil francos para o marido. Então, ousou mentir:
- Sim, ele me escreveu.
- Mas quando? Você não me disse nada ontem.
- Recebi a carta esta manhã.
- Pode me mostrar?
- Não... não... não... ela continha coisas íntimas... muito pessoais... eu... eu a queimei.
- Então, é que seu marido contraiu dívidas?
Ela hesitou novamente, depois murmurou:
- Não sei.
Declarei bruscamente:
- É que eu não posso dispor de cinco mil francos neste momento, minha cara prima.
Ela soltou uma espécie de grito de dor:
- Oh! Oh! Por favor! Por favor, arranje-os...
Ela se exaltava, juntava as mãos como se me implorasse! Ouvia sua voz mudar de tom; chorava e balbuciava, aflita, dominada pela ordem irresistível que recebera.
- Oh! Oh! Por favor... se soubesse como sofro... preciso deles hoje.
Tive piedade dela.
- Você os terá logo, eu prometo.
Ela exclamou:
- Oh! Obrigada! Obrigada! Como você é bom!
Prossegui:
- Lembra-se do que se passou ontem em sua casa?
- Sim.
- Lembra-se que o doutor Parent a fez dormir?
- Sim.
- Pois bem, ele mandou que você viesse me pedir emprestado esta manhã cinco mil francos e, neste momento, você está obedecendo a esta sugestão.
Ela refletiu alguns segundos e respondeu:
- Mas como, já que é o meu marido que os pede?
Durante uma hora, tentei convencê-la, mas não consegui.
Quando ela partiu, corri para a casa do doutor.
Ele ia sair, e escutou-me sorrindo. Depois disse:
- Acredita agora?
- Sim, tenho de acreditar.
- Vamos à casa da sua prima.
Ela já cochilava numa espreguiçadeira, morta de cansaço. O médico tomou-lhe o pulso, olhou-a por algum tempo, com uma mão erguida na direção de seus olhos que iam se fechando pouco a pouco sob a insustentável pressão daquela força magnética.
Quando adormeceu:
- O seu marido não precisa mais de cinco mil francos. A senhora esquecerá, portanto, que os pediu emprestados ao seu primo, e, se ele lhe falar nisso, não compreenderá nada.
Depois, ele a despertou. Tirei do bolso uma carteira.
- Aqui está, minha cara prima, o que me pediu de manhã.
Ela ficou tão surpresa que não ousei insistir. Tentei, no entanto, reavivar-lhe a memória, mas ela negou com veemência, pensando que eu estivesse zombando dela e, por fim, quase se zangou.
(......)
Pronto! Acabo de chegar; e não pude almoçar, de tal forma esta experiência me perturbou.
19 de Julho
Várias pessoas a quem contei esta aventura zombaram de mim. Não sei mais o que pensar. O sábio diz: Quem sabe?
21 de Julho
Fui jantar em Bougival, depois passei a noite no baile dos barqueiros. Decididamente, tudo depende dos locais e dos ambientes. Acreditar no sobrenatural na ilha de Grenouillère seria o cúmulo da loucura... Mas no alto do monte Saint-Michel?... Mas na Índia? Sofremos terrivelmente a influência do que nos cerca. Voltarei para casa na próxima semana.
30 de Julho
Estou na minha casa desde ontem. Tudo vai bem.
2 de Agosto
Nada de novo; o tempo está magnífico. Passo meus dias vendo correr o Sena.
4 de Agosto
Discussões entre os criados. Eles dizem que alguém, durante a noite, quebra os copos que estão nos armários. O camareiro acusa a cozinheira, que acusa a roupeira, que acusa os outros dois. Quem é o culpado? Difícil saber.
6 de Agosto
Desta vez, eu não estou louco. Eu vi... eu vi... eu vi! Não posso mais duvidar... eu vi! Ainda sinto um calafrio até debaixo das unhas... ainda sinto medo até a medula... eu vi!
Passeava às duas horas, em pleno sol, pelo canteiro das roseiras... na aléia das roseiras de outono que começam a florir.
Quando parei para olhar um géant dês batailles com três flores magníficas, eu vi, vi nitidamente, bem perto de mim, o caule de uma dessas rosas dobrar-se como se uma mão invisível o tivesse torcido, e depois quebrar-se, como se essa mão o tivesse colhido! Em seguida, a flor se ergueu, seguindo a curva que teria descrito um braço ao levá-la até a boca, e ficou suspensa no ar transparente, sozinha, imóvel, terrível manca vermelha a três passos dos meus olhos.
Desvairado, lancei-me sobre ela para agarrá-la! Nada encontrei: ela havia desaparecido. Então, fui tomado de uma cólera furiosa contra mim mesmo; pois não se admite que um homem sensato e sério tenha semelhante alucinações.
Mas seria realmente uma alucinação? Voltei-me para procurar o caule e logo o encontrei em um arbusto, recém-quebrado, entre as duas outras rosas que ficaram no ramo.
Então, voltei para casa com o espírito perturbado, pois estou certo agora, certo como da sucessão dos dias e das noites, que existe perto de mim um ser invisível que se alimenta de leite e água, que pode tocar nos objetos, pegá-los, mudá-los de lugar, dotado, por conseguinte, de uma natureza material, embora imperceptível aos nossos sentidos, e que mora, como eu, sob meu teto...
7 de Agosto
Dormi tranqüilo. Ele bebeu a água da minha jarra, mas não perturbou o meu sono.
Eu me pergunto se estou louco. Passeando há pouco ao sol, pela margem do rio, surgiram-me dúvidas sobre minha razão, não dúvidas vagas como as que tivera até então, mas dúvidas precisas, absolutas. Eu vi loucos, conheci alguns que permaneciam inteligentes, lúcidos e até perspicazes em relação a todas as coisas da vida, salvo num ponto. Falavam de tudo com clareza, com desembaraço, com profundidade, mas de súbito seu pensamento, ao atingir o escolho da sua loucura, despedaçava-se, desintegrava-se e naufragava nesse oceano revolto e terrível, cheio de ondas enfurecidas, de nevoeiros, de borrascas, a que se chama “demência”.
Sem dúvida, eu me julgaria louco, completamente louco, se não estivesse consciente, se não conhecesse perfeitamente o meu estado, se não o sondasse analisando-o com total lucidez. Em suma, eu não passaria, portanto, de um alucinado racional. Uma perturbação desconhecida teria se produzido em meu cérebro, uma dessas perturbações que atualmente os fisiologistas procuram averiguar e precisar; e essa perturbação teria causado em meu espírito, na ordem e na lógica das minhas idéias, uma falha profunda. Fenômenos semelhantes acontecem no sonho que nos leva a atravessar as fantasmagorias mais inverossímeis sem que isso nos surpreenda, porque o aparelho verificador, o sentido do controle, está adormecido; enquanto que a faculdade imaginativa vigia e trabalha. Será que uma das teclas imperceptíveis do teclado cerebral não se encontra paralisada em mim? Há homens que, em conseqüência de acidentes, perdem a memória dos nomes próprios ou dos verbos ou dos algarismos, ou apenas das datas. As localizações de todas as parcelas do pensamento estão hoje comprovadas. Ora, o que há de espantoso no fato de minha faculdade de controlar a irrealidade de certas alucinações estar entorpecida no momento?
Pensava tudo isso enquanto seguia pela margem. O sol cobria de claridade o rio, tornava a terra deliciosa, enchia o meu olhar de amor á vida, às andorinhas, cuja agilidade é uma alegria para os meus olhos, às ervas da margem, cujo murmúrio é uma felicidade para os meus ouvidos.
Pouco a pouco, no entanto, um mal-estar inexplicável me invadia. Parecia-me que uma força, uma força oculta me entorpecia, me paralisava, me impedia de avançar, me puxava para trás.
Experimentava essa dolorosa necessidade de voltar que nos oprime quando deixamos em casa um doente querido, e nos domina o pressentimento de um agravamento do seu mal.
Voltei, então, contra a minha vontade, certo de que ia encontrar em casa uma notícia má, uma carta ou um telegrama. Não havia nada; e fiquei mais surpreso e inquieto do que se tivesse tido novamente alguma visão fantástica.
8 de Agosto
Ontem passei uma noite terrível. Ele não se manifesta mais, mas eu o sinto por perto de mim, espiando-me, olhando-me, dominando-me, e mais temível ao se esconder assim do que se assinalasse através de fenômenos sobrenaturais a sua presença invisível e constante.
Dormi, no entanto.
9 de Agosto
Nada, mas tenho medo.
10 de Agosto
Nada, o que acontecerá amanhã?
11 de Agosto
Nada ainda; não posso continuar em casa com este temor e este pensamento na alma; vou partir.
12 de Agosto – 10 horas da noite
Durante todo o dia desejei partir, não consegui. Quis realizar este ato de liberdade tão fácil, tão simples – sair – subir no meu carro para ir a Rouen – não consegui. Por quê?
13 de Agosto
Quando certas doenças nos atingem, todas as molas do ser físico parecem quebradas, todas as energias aniquiladas, todos os músculos enfraquecidos, os ossos moles como a carne e a carne líquida como água. Sinto isto no meu ser moral de uma forma estranha e desoladora. Não tenho mais nenhuma força, nenhuma coragem, nenhum domínio sobre mim, nenhum poder para pôr em movimento a minha vontade. Não consigo mais querer; mas alguém quer por mim; eu obedeço.
14 de Agosto
Estou perdido! Alguém possui a minha alma e a governa! Alguém comanda todos os meus atos, todos os meus gestos, todos os meus pensamentos. Já não sou nada em mim, senão um espectador escravo e aterrorizado com todas as coisas que faço. Desejo sair. Não posso. Ele não quer; e eu fico desvairado, trêmulo, na poltrona onde ele me mantém sentado. Desejo apenas levantar-me, erguer-me, para acreditar que ainda sou senhor de mim. Não posso! Estou preso na minha cadeira e a minha cadeira adere ao solo de tal modo que nenhuma força poderia nos erguer.
Depois, de súbito, é preciso, é preciso, é preciso que eu vá ao fundo do meu jardim colher morangos e comê-los! E eu vou. Colho morangos e os como. Oh! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Existe um Deus? Se existe, livrai-me! Salvai-me! Acudi-me! Perdão! Piedade! Misericórdia! Salvai-me! Oh! Que sofrimento! Que tortura! Que horror!
15 de Agosto
Sem dúvida, era assim que estava possuída e dominada a minha pobre prima quando veio pedir-me cinco mil francos. Ela sofria a influência de um querer estranho que nela entrara, como uma outra alma, parasita e dominadora. Será que o mundo vai acabar?
Mas esse que me governa, quem é ele, esse invisível, esse incognoscível, esse vagabundo de uma raça sobrenatural? Portanto, os Invisíveis existem! Então, como é que desde a origem do mundo ainda não tinham se manifestado de uma forma precisa como o fazem agora comigo? Nunca li nada que se assemelhasse ao que se passou na minha casa. Ah! Se eu pudesse deixá-la, se pudesse ir embora, fugir e nunca mais voltar. Eu estaria salvo, mas não posso.
16 de Agosto
Consegui escapar hoje durante duas horas, como um prisioneiro que encontra aberta, por acaso, a porta do seu calabouço. Senti que estava livre de repente e que ele se achava longe. Mandei atrelar a carruagem às pressas e dirigi-me a Rouen. Oh! Que alegria poder dizer para um homem que obedece: “Para Rouen!”
Mandei parar na biblioteca e pedi emprestado o grande tratado do doutor Hermann Herestauss*sobre os habitantes desconhecidos do mundo antigo e moderno.
Depois, quando subia no cupê, quis dizer: “Para a estação!” e gritei – não disse, gritei – com uma voz tão forte que os transeuntes se voltaram: “Para casa!”, e caí, louco de angústia, no assento da carruagem. Ele havia me encontrado e me apanhara de novo.
17 de Agosto
Ah! Que noite! E, no entanto, parece-me que deveria alegrar-me. Li até uma hora da manhã! Hermann Herestauss, doutor em filosofia e em teogonia, escreveu a história e as manifestações de todos os seres invisíveis que rondam em torno do ou são por ele sonhados. Descreve as suas origens, o seu domínio, o seu poder. Mas nenhum deles se assemelha àquele que me persegue. Dir-se-ia que o homem, desde que pensa, pressentiu e temeu um novo ser, mais forte do que ele, seu sucessor neste mundo e que, sentindo-o próximo e não podendo prever a natureza desse senhor, criou, no seu terror, todo o povo fantástico dos seres ocultos, vagos fantasmas nascidos do medo.
Tendo, pois, lido até uma hora da manhã, fui sentar-me, em seguida, perto da janela aberta para refrescar a cabeça e o pensamento ao vento calmo da escuridão.
O tempo estava bom, morno. Como teria gostado desta noite outrora!
Não havia lua. As estrelas, no fundo do céu negro, possuíam trêmulas cintilações. Quem habita esses mundos? Que formas, que seres vivos, que animais, que plantas existem lá? Os que pensam nesses universos longínquos, o que sabem mais do que nós? O que podem mais do que nós? O que vêem que nós não conhecemos? Será que um deles, mais dia menos dia, atravessando o espaço, não aparecerá na nossa Terra para conquistá-la, como os normandos outrora atravessaram o mar para subjugar os povos mais fracos?
Somos tão fracos, tão desarmados, tão ignorantes, tão pequenos, sobre este grão de lama que gira diluído numa gota d’água.
Assim pensando, adormeci ao vento fresco da noite.
Ora, tendo dormido cerca de quarenta minutos, abri os olhos sem fazer movimento, despertado por não sei que emoção confusa e estranha. A princípio, nada vi, depois, de repente, pareceu-me que uma página do livro que ficara aberto sobre a mesa acabava de virar-se sozinha. Nenhuma corrente de ar entrara pela janela. Fiquei surpreso e esperei. Uns quarenta minutos depois, eu vi, sim, eu vi com os meus próprios olhos uma outra página erguer-se e pousar sobre a precedente, como se um dedo a tivesse folheado. A poltrona estava vazia, parecia vazia; mas eu compreendi que ele estava ali, sentado no meu lugar, e que lia. Num salto furioso, num salto de fera revoltada que vai dilacerar seu domador, atravessei o quarto para agarrá-lo, estrangulá-lo, matá-lo!... Mas a cadeira, antes que eu a alcançasse, virou como se alguém tivesse fugido diante de mim... a mesa oscilou, o candeeiro caiu e apagou-se e a janela fechou-se como se um malfeitor surpreendido tivesse escapado na noite, agarrando com ambas as mãos os batentes.
Então ele fugira, ele tivera medo, medo de mim!
Nesse caso... nesse caso... amanhã... ou depois... um dia qualquer... poderei agarrá-lo, esmagá-lo contra o chão! Os cães, às vezes, não mordem e estrangulam seus donos?
18 de Agosto
Refleti durante todo o dia. Oh! Sim, vou obedecer-lhe, seguir os seus impulsos, cumprir todas as suas vontades, tornar-me humilde, submisso, covarde. Ele é o mais forte. Mas há de chegar o dia...
19 de Agosto
Já sei... já sei... já sei de tudo! Acabo de ler isto na Revue du Monde Scientifique:
“Chega-nos do Rio de Janeiro uma notícia bastante curiosa. Uma loucura, uma epidemia de loucura, comparável às demências contagiosas que atingiram os povos da Europa na Idade Média, alastra-se neste momento na província de São Paulo. Os habitantes alucinados deixam suas casas, fogem das aldeias, abandonam suas plantações, dizendo-se perseguidos, possuídos, governados como um rebanho humano por seres invisíveis, embora tangíveis, espécies de vampiros que se alimentam de suas vidas durante o sono e que bebem, além disso, água e leite sem parecer tocar em nenhum outro alimento.
O senhor professor Don Pedro Henriquez, acompanhado de vários cientistas médicos, partiu para a província de São Paulo, a fim de estudar in loco as origens e as manifestações desta surpreendente loucura, e propor ao Imperador as medidas que lhe parecerem mais adequadas para trazer de volta à razão estas populações em delírio.”
Ah! Ah! Eu me lembro, lembro-me da bela galera brasileira que passou pelas minhas janelas subindo o Sena, no dia 8 de maio passado! Achei-a tão linda, tão branca, tão alegre! O Ser estava ali, vindo de lá, de onde sua raça nascera! E ele me viu! Viu a minha casa branca também; e saltou do navio para a margem. Oh! Meu Deus!
Agora eu sei, eu pressinto. O reinado do homem chegou ao fim.
Ele veio. Aquele que despertava os primeiros terrores dos povos primitivos. Aquele que os padres exorcizavam, aquele que os feiticeiros evocavam nas noites sombrias, sem o verem ainda aparecer, a quem os pressentimentos dos senhores efêmeros do mundo emprestaram todas as formas monstruosas ou graciosas dos gnomos, dos espíritos, dos gênios, das fadas, dos duendes. Após as grosseiras concepções do medo primitivo, homens mais perspicazes o pressentiram com mais clareza. Mesmer o adivinhara e os médicos, há dez anos, descobriram, de um modo preciso, a natureza de seu poder antes que ele próprio o tivesse utilizado. Brincaram com esta arma do novo Senhor, o domínio de uma misteriosa vontade sobre a alma humana escravizada. Chamaram a isso magnetismo, hipnose, sugestão... que sei eu? Eu os vi divertirem-se como crianças imprudentes com esse terrível poder. Ai de nós! Ai do homem! Ele veio, o... o... como se chama... o... parece que ele me grita o seu nome, e eu não ouço... o... sim, ele grita... eu escuto... não posso, repete... o... Horla... eu ouvi... o Horla... é ele... o Horla... ele veio!...
Ah! O abutre comeu a pomba; o lobo comeu o cordeiro, o leão devorou o búfalo de chifres agudos; o homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora; mas o Horla vai fazer do homem o que nós fizemos do cavalo e do boi: o seu objeto, o seu servo e o seu alimento, apenas pelo poder da vontade. Ai de nós!
No entanto, o animal às vezes se revolta e mata aquele que o domou... eu tambem quero... eu poderei... mas é preciso conhecê-lo, tocá-lo, vê-lo! Os sábios dizem que o olhar do animal, diferente do nosso, não distingue da mesma forma que o nosso... E o meu olhar não pode distinguir o recém-chegado que me oprime.
Por quê? Oh! Lembro-me agora das palavras do monge de Saint-Michel: “Será que nós vemos a centésima milésima parte do que existe? Olhe, eis o vento que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate os edifícios, desenraiza as árvores, faz o mar erguer-se em montanhas d’água, destrói as falésias e lança os grandes navios contra os recifes, o vento que mata, que assobia, que geme, que ruge – já viu ou poderá ver? E, no entanto, ele existe!”
E pensava ainda: o meu olho é tão fraco, tão imperfeito, que não distingo nem mesmo os corpos sólidos, quando estes são transparentes como o vidro!... Basta que um espelho sem aço barre o meu caminho, para que me lance contra ele como o pássaro que entrando num quarto vai de encontro aos vidros. Mil coisas, além disso, o enganam e o desnorteiam! O que há de espantoso em que não saiba perceber um corpo que a luz atravessa?
Um novo ser! Por que não? Ele deveria vir, certamente! Por que seríamos os últimos? Nós não o distinguimos, como não o puderam distinguir todos os outros seres criados antes de nós. É que a sua natureza é mais perfeita, seu corpo mais fino e mais acabado que o nosso, tão fraco, tão desajeitadamente concebido,cheio de órgãos sempre fatigados, sempre forçados como instrumentos como instrumentos mais complexos, corpo que vive como uma planta e como um animal, alimentando-se penosamente de ar, de ervas e de carne, máquina animal sujeita às doenças, às deformações, às putrefações, ofegante, mal regulada, primitiva e bizarra, engenhosamente mal feita, obra grosseira e delicada, esboço de ser que poderia tornar-se inteligente e soberbo.
Somos apenas alguns, tão poucos neste mundo, desde a ostra até o homem. Por que não mais um, uma vez cumprido o período que separa os aparecimentos sucessivos das diversas espécies?
Por que não mais um? Por que não também outras árvores de flores imensas, magníficas, perfumando regiões inteiras? Por que não outros elementos além do fogo, do ar, da terra e da água? São quatro, nada mais que quatro, essas fontes que alimentam os seres! Que miséria! Por que não são quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho, miserável! Avaramente concebido, secamente inventado, grosseiramente feito! Ah! O elefante, o hipopótamo, que graça! O camelo, que elegância!
Mas, dirão vocês, a borboleta! Uma flor que voa! Imagino uma que seria grande como cem universos, com asas de que não posso nem exprimir a forma, a beleza, a cor e o movimento. Mas eu a vejo... ela vai de estrela em estrela, refrescando-as e prefumando-as ao sopro leve e harmonioso de sua passagem!... E os povos das alturas a vêem passar, extasiados e encantados!
Mas o que é que eu tenho? É ele, ele, o Horla, que me habita, que me faz pensar essas loucuras! Ele está em mim, ele se torna a minha alma; eu o matarei.
19 de Agosto
Eu o matarei! Eu o vi! Ontem à noite, sentei-me à mesa e fingi estar escrevendo com grande atenção. Sabia que ele viria rondar à minha volta, bem perto, tão perto que, talvez, pudesse tocá-lo, agarrá-lo! E então!... então, eu teria a força dos desesperados; teria as minhas mãos, os meus joelhos, o meu peito, a minha fronte, os meus dentes para estrangulá-lo, esmagá-lo, mordê-lo, dilacerá-lo.
E eu o espiava com todos os meus órgãos superexcitados.
Tinha acendido os meus dois candeeiros e as oito velas da minha lareira, como se pudesse descobri-lo nessa claridade.
Diante de mim, a minha cama, uma velha cama de carvalho com colunas; à direita, a lareira; à esquerda, a porta cuidadosamente fechada, depois de a ter deixado por muito tempo aberta a fim de atraí-lo; atrás de mim, um armário muito alto com um espelho que me servia todos os dias para me barbear e me vestir, e onde eu tinha o hábito de me olhar, da cabeça aos pés, sempre que passava pela sua frente.
Fingia, então, estar escrevendo, para enganá-lo, pois ele também me espiava,e , de súbito, senti, tive a certeza de que ele lia por cima do meu ombro, de que ele estava ali, roçando a minha orelha.
Levantei-me, com as mãos estendidas, virando-me tão depressa que quase caí. Pois bem!... enxergava-se como em pleno dia, e eu não me via no espelho!... ele estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Minha imagem não estava lá... e eu estava diante dele! Eu via de alto a baixo o grande vidro límpido. E olhava para aquilo com um olhar alucinado; e não ousava mais avançar, não ousava mais fazer qualquer movimento, sentindo, no entanto, que ele estava lá, mas que me escaparia de novo, ele, cujo corpo imperceptível havia devorado o meu reflexo.
Como tive medo! Depois, eis que de repente comecei a avistar-me numa bruma no fundo do espelho, numa bruma como através de uma toalha d’água; e me parecia que esta água deslizava da esquerda para a direita, lentamente, tornando a minha imagem mais precisa a cada segundo. Era como o fim de um eclipse. O que me ocultava não parecia possuir contornos claramente definidos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando pouco a pouco. Pude, enfim, distinguir-me completamente, assim como faço todos os dias ao me olhar.
Eu o tinha visto! Ficou-me o terror daquela visão que ainda me faz estremecer.
20 de Agosto
Matá-lo, como, se não posso atingi-lo? Veneno? Mas ele me veria misturá-lo na água; e os nossos venenos, aliás, teriam algum efeito sobre o corpo imperceptível? Não... não... sem dúvida alguma... e então? E então?
21 de Agosto
Mandei vir um serralheiro de Rouen e encomendei-lhe para o meu quarto persianas de ferro como têm, em Paris, certas casas particulares, no rés-do-chão, por causa dos ladrões. Ele me fará, além disso, uma porta idêntica. Passei por covarde, mas estou pouco ligando!
10 de Setembro – Rouen, Hotel Continental
Tudo acabado!... Mas terá morrido? Tenho a alma transtornada com o que vi. Ontem, tendo o serralheiro colocado as persianas e a porta de ferro, deixei tudo aberto até a meia-noite, embora começasse a fazer frio.
De repente, senti que ele estava lá, e uma alegria, uma louca alegria se apoderou de mim. Levantei-me lentamente e andei de um lado para o outro durante muito tempo, para que ele nada suspeitasse; depois, tirei as botas e calcei os chinelos com negligência; a seguir, fechei as persianas de ferro e, voltando tranquilamente até a porta, fechei-a também com duas voltas. Dirigindo-me, então, à janela, fechei-a com um cadeado cuja chave guardei no bolso.
De repente, senti que ele se agitava à minha volta, que ele, por sua vez, tinha medo, que me ordenava que lhe abrisse a porta. Estive a ponto de ceder: não cedi, mas, encostando-me à porta, entreabri-a apenas o suficiente para eu poder passar, de costas, e como sou muito alto, minha cabeça tocava no portal. Estava certo de que ele não pudera escapar e fechei-o completamente só. Que alegria! Eu o apanhara! Então, desci correndo; peguei, no salão que ficava embaixo do meu quarto, os meus dois candeeiros e derramei todo o óleo no tapete, nos móveis, por toda parte; depois, ateei fogo e me pus a salvo, após ter deixado bem trancada com duas voltas a grande porta de entrada.
E fui esconder-me no fundo do meu jardim, atrás de uns loureiros. Como demorou! Como demorou! Tudo era negro, mudo, imóvel, nem um sopro de vento, nem uma estrela, montanhas de nuvens que não se viam, mas que pesavam muito na alma.
Olhava para minha casa e esperava. Como demorou! Julgava já que o fogo se extinguira sozinho ou que ele o apagara, quando uma das janelas de baixo rebentou sob o ímpeto do incêndio e uma chama, uma grande chama vermelha e amarela, longa, suave, acariciante, subiu ao longo da parede branca e a beijou até o telhado. Um clarão percorreu as árvores, os ramos, as folhas, e um arrepio, um arrepio de medo também. Os pássaros despertaram; um cão começou a uivar; pareceu-me que estava amanhecendo! Duas outras janelas rebentaram nesse instante e eu vi que toda a parte de baixo da minha casa não passava de um braseiro medonho. Mas um grito, um grito horrível, agudíssimo, dilacerante, um grito de mulher atravessou a noite e duas mansardas se abriram! Eu tinha esquecido os meus criados! Vi seus rostos alucinados e seus braços que se agitavam!...
Então, louco de horror, comecei a correr para a aldeia gritando: “Socorro! Socorro! Fogo! Fogo!” Encontrei pessoas que já se dirigiam para lá e voltei com elas para ver.
A casa, agora, era apenas uma fogueira horrível e magnífica, uma fogueira monstruosa, iluminando toda a terra, uma fogueira onde ardiam homens e onde também ele ardia. Ele, ele, o meu prisioneiro, o novo Ser, o Horla.
Subitamente, todo o telhado foi engolido pelas paredes e um vulcão de chamas jorrou até o céu.
Por todas as janelas abertas sobre a fornalha, eu via a cuba de fogo e pensava que ele estava ali, naquele forno, morto.
Morto? Talvez!... E o seu corpo? Esse corpo que a luz atravessava não seria indestrutível pelos meios que matam os nossos?
E se não estivesse morto?... Só o tempo, talvez, tem poder sobre o Ser Invisível e Temível. Por que então esse corpo transparente, esse corpo imperceptível, esse corpo de Espírito, se ele também tivesse que temer os males, os ferimentos, as doenças, a destruição prematura?
A destruição prematura? Todo o terror humano provém dela! Depois do homem, o Horla – após aquele que pode morrer em qualquer dia, a qualquer hora, a qualquer minuto, por qualquer acidente, chegou aquele que só deve morrer no seu dia, na sua hora, no seu minuto, porque atingiu o limite de sua existência!
Não... não... sem dúvida alguma, sem dúvida alguma... ele não morreu... Então... então... vai ser preciso agora que eu me mate!
*Herestauss – nome fantasista forjado sobre as palavras alemãs herr (senhor, mestre) e aus (fora de). Herestauss é aquele que “é de alhures”, “de um outro lugar”.
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A imagem que adorna esta postagem é uma das milhares de fotos que se supõe ser de um fantasma. Eu não vi nada. Se alguém conseguir ver, por favor, me mostre.
Até a próxima!

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